Sessão

Mostra Antropoceno ou como eliminar o rastro humano do planeta

Na última edição da nossa Mostra Strangloscope, em 2021, criamos um eixo temático que pudesse trazer a tona uma reflexão em torno do papel do humano num planeta que vem tendo sua natureza destruída pela ganância e direcionamento para o lucro a qualquer custo. Antropoceno ou como eliminar o rastro humano do planeta foi uma chamada de trabalhos de cinema experimental que se voltavam para este mesmo sentimento de mundo em que buscamos pensar numa ética e numa política voltadas para os desafios de hoje: mudanças climáticas, cuidados multiespécies, militância anticapitalista, desafios que passam pelo questionamento das práticas artísticas através de gestos que contenham poder de transformação. O que seria uma estética diferente para pensar as relações e apagamentos do humano e seu poder destruidor sobre a natureza? Pensar imagens libertas do caráter representativo; pensá-las, antes, como potências imagéticas e sonoras que rompem com o Antropocentrismo a medida que afirmam uma micropolítica da percepção? Uma poética da imanência? Buscamos criar uma curadoria de filmes em que uma abertura sensível à possibilidade de fazer da imagem o lugar onde novos modos de existência pudessem emergir. Desejamos criar uma abertura sensível a um cinema experimental que subverta a ordem da destruição.
Selecionamos para exibir no Pan-Cinema Experimental um conjunto de filmes e vídeos que criam diferentes modos de aproximação destas questões e que podem ser identificados com técnicas e estéticas bem diferentes uns dos outros, desde a matéria que constitui as imagens e os sons como também o modo de montagem e configuração de uma linguagem ora centrada num gesto mais formalista que busca a relação entre o dentro e o fora da paisagem como acontece em In and out a windom. A investida de criação artística com um foco preciso, justo, afinado e controlador em que os artistas não só participam da ação frente à câmera como expõem o uso do gatilho, do artíficio técnico da câmera e o ritmo do processo de filmagem da dupla australiana composta por Dianna Barrie e Richard Tuohy. Em seguida, buscando um diálogo sem falas, abrimos o campo de visão para o vôo solitário de Vulture, de Philip Hoffman. O abutre que sobrevoa a paisagem terrena em sua busca por alimento, o centramento do olhar num alvo justo e focado na matéria do pensamento que empresta a visão da ave para encontrar sua presa, ao mesmo tempo percurso da matéria fílmica que impregna a imagem de textura e cor e de como filmar. Estabelecendo assim, como no procedimento de In and out a window, a exata circunscrição de um processo de criação que sabe exatamente o que deseja alcançar como mira e objetivo de rapina e, no entanto, através de procedimentos que tornam estes olhares tão diferentes e modulados em uma espécie de dar a ver e sentir as subjetividades que os compõem e os formam.
Com o objetivo de prosseguir criando aproximações e contrastes no modo de apresentar um pensamento imagem em movimento, apresentamos dois vídeos que em comum apresentam modos de imprimir mudanças sobre a natureza das imagens através de gestos artísticos de intervenção. Em Another Horizon, de Stephanie Barber, percebemos como o traço sobre a paisagem, marca de uma quase escrita geológica sobre a natureza de punho humano , cria uma nova poética do espaço e do gesto. Já em Durmientes – Le Battement de la forêt, de Isabel Pérez del Pulgar, os artifícios são estratégias criadas através de efeitos computadorizados que de modo bastante peculiar insuflam as imagens pedras e plantas para que elas respirem num batimento cardíaco semelhante ao humano. O personagem do menino que explora o território da floresta, colocado artificialmente numa escala bem menor do que o cenário da natureza que o circunda, torna a figura humana pequena, mínima, até mesmo descuidada pois pisa sem temor e sem licença um corpo pedra que acredita estar dormente enquanto ele está vivo e pulsante, o que expressa esta suposta cegueira do humano frente à natureza que ele vê como inerte e diferente de si mesmo.
A natureza erodida e fossilizada, mais antiga do que qualquer rastro nosso sobre a Terra, num gesto dócil e agregador, guarda, em si, fossilizados, os nossos registros de passagens. Traçando um paralelo com os negativos fílmicos da artesania do cinema, a filigrana da erosão das rochas, a materialidade e os códigos binários das imagens criadas em computadores, Locus Suspectus, de J.M. Martínez, também cria este paralelo do humano frente a natureza para refletir através das imagens orgânicas nossas semelhanças e pertecimento. Pedra e pele. Rocha e pelo. Cavidades do encontro com nossos vazios e vazados, profundidades e superfícies. Para contrastar e complementar esta reflexão escolhemos exibir em seguida Eidolon, de Mike Rollo, que cria um texto tapeçaria de imagens em composição de montagem de fragmentos de filmes trabalhados de distintas formas, utilizando tanto o scratching sobre película filmada, quanto o efeito shutter que cria outro movimento para as imagens, além da contraposição de sombras do humano sobre pedras que também trazem esta reflexão sobre a materialidade humana das imagens. Como interferimos é traço humano, intenso, busca contínua e processo de descobertas a partir de experimentações e pesquisas cinematográficas. Conteúdo e continente, figura e forma, alteridade revisitada a partir do humano interesse e aprofundamento em técnicas e modos de perceber e dar a ver. O sujeito que nunca se funda e que sempre se torna o seu próprio processo de investigação da matéria que compõe sua busca artística.
Os três filmes seguintes são jogos, propostas de viver em um outro registro de aproximação com a dor, a vida, as perdas. Buscamos encerrar este programa de filmes tentando organizar nossos pequenos terrores íntimos através de filmes que buscam expressar o poder dos afetos, dos encontros e do devir. Dear Friend, de Luca Sorgato, Revision, de Mikhail Zheleznikov e The Lilac Game, de Emma Piper-Burket falam de diferentes modos de interpretar os desafios deste contemporâneo pandêmico e violento nos levando a encontrar formas de superação e enfrentamento que nos mantenham atentos e leves, atuantes e reflexivos, críticos e agregadores, combativos e com humor para resistirmos fazendo o que sabemos e nos propomos: cinema experimental.

Filmes da Sessão

films from the session